Uma nova aventura pelo sertão no encerramento
da MOSTRA CINE

Texto: João Carlos Sampaio* | Fotos: Gil Vicente @ 2003
Um comerciante que usa o cinema como meio publicitário para vender aspirinas sob o céu do sertão ensolarado, sem nuvens e povoado por urubus. Daí surge o título Cinema, Aspirinas e Urubus, do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, que será exibido hoje, às 20h, na MOSTRA CINE-NH.

Cinema, Aspirinas e Urubus é um road movie, lançado no Festival de Cannes em 2005, sinaliza a maturidade cinematográfica de uma geração e aposta no humor singelo, sustentado por uma espécie de “causo” típico do interior. Apresenta uma impressionante fotografia de tons alaranjados, que traduzem o calor do sol escaldante e os cenários amplos do sertão. Prima por diálogos bem concebidos e pela atuação impecável da dupla central de atores, o alemão Peter Ketnath e o baiano João Miguel, de Estômago.

A fotografia, assinada por Mauro Pinheiro, é talvez a maior virtude deste filme, que começa com uma imagem totalmente estourada pelo o excesso de luz, para progressivamente, dar correção e foco, revelando uma paleta de cores com variação entre o dourado e o ocre. Dos tons amarelados aos esbranquiçados, muito contraste para evocar a luminosidade do semi-árido.

A trama confronta dois personagens bem distintos, dois mundos que se encontram no Brasil do início dos anos 1940. Um deles é um alemão fugido da guerra (Ketnath), que, a bordo de um caminhão, se embrenha pelos bretões do semi-árido pernambucano para vender analgésicos, usando como chamariz para o seu comércio um equipamento de projeção.

Durante as andanças do alemão, surge um matuto (João Miguel), que se torna ajudante, alimentando o sonho pessoal de um dia viajar com o novo patrão rumo à cidade grande, quem sabe, o Rio de Janeiro. Esse par improvável vai resultar numa forte amizade, capaz de superar todas as diferenças, numa aventura que prima pelo olhar humanista.
Com equilíbrio entre forma e fundo raro para um estreante, Marcelo Gomes realizou uma das melhores abordagens do sertão nordestino e um dos grandes momentos do cinema brasileiro atual.
*Jornalista e crítico de cinema. Escreve para veículos impressos e atua também como comentarista em programas de rádio e TV.
